Decidi permitir-me um desabafo, neste blogue tão pouco dado a temas pouco bubblies...
A minha ausência nos últimos tempos tem-se prolongado inevitavelmente. Além de todos os desafios profissionais com que me tenho deparado, tenho a minha avó muito doente no hospital. A minha mãe está inconsolável e o clima em casa pesado, ou não fosse a minha avó, a avó de sonho de qualquer criança e a mãe perfeita para a minha mãe.
Nos últimos anos, em que a minha avó já tinha piorado bastante em termos do seu estado de saúde, já me comovia quando ia lá a casa visitá-la e, por cobardia, porque não queria guardar esta imagem dela, mais debilitada e menos feliz, as minhas visitas foram-se tornando, cada vez mais, escassas, facto de que me arrependo agora, no momento em que se encontra no hospital e em que os médicos já esclareceram que não haverá melhorias significativas no seu estado de saúde.
Espero que, aconteça o que acontecer, ela se sinta, em todos os momentos, amada e que nunca tenha visto a minha ausência recente como falta de preocupação ou de amor, porque nunca foi. Na realidade, quando temos as pessoas que amamos e que são importantes, caímos quase sempre no erro de as tomar como garantidas, até um dia...
Enquanto ela ainda está aqui, connosco, decidi que deveria fazer-lhe uma homenagem, pela pessoa fantástica, apaixonada que sempre foi, e de quem me orgulho de ser neta.
A minha avó é linda, linda por dentro e por fora e isso, visto que eu sou parecida com ela fisicamente é um facto que me deixa orgulhosa. Tem uns olhos negros comp carvão e o cabelo, quando era mais nova, era preto também. De pele morena e sorriso grande, aberto e disponível na boca, sempre foi positiva em relação à vida, tal como eu.
Quando ainda podia andar e falar (entretanto, um AVC fez com que perdesse algumas das suas capacidades motoras e verbais), era uma pessoa activa e uma apaixonada pela vida (e pelo meu avô, que mesmo depois de nos deixar, ainda eu não tinha nascido, sempre foi o princípe encantado da minha avó). Tiveram 12 filhos, uma família grande, que criaram com amor, respeito e muito carinho. A minha mãe costuma contar que já com cerca de 40 anos os dois, ainda namoravam como adolescentes, ainda viviam uma paixão e um amor como a que eu quero continuar a viver, mesmo com 40 anos. Esta era uma daquelas relações com o tão cobiçado carimbo "Forever". Quando falava do meu avô, todos notávamos o seu olhar brilhante, perdido, distante e apaixonado. Nunca me vou esquecer dessa imagem, porque é assim que eu quero que um dia, daqui a muitos anos, a pessoa que estiver ao meu lado, fale de mim, com o brilho nos olhos que eu via nos da minha avó...
Sempre foi generosa para com os outros e dotada de uma bondade, expressividade, humildade e inocência que gostaria de ter herdado na dose certa, mas não lhe chego aos pés, infelizmente. Algumas das memórias mais felizes que guardo da minha infância foram passadas com ela. Sempre a descrevi aos meus amigos, e continuo a descrever, como "a minha avó de sonho", a "avó das historinhas de encantar" (facto que a minha própria família desconhece, mas é assim que a vejo, ainda hoje).
Lembro-me de estar na casa dela, em Perre, uma aldeia aqui perto de Viana do Castelo, e de ela me preparar o pão torrado de manhã e o copinho de leite quente. O sabor, quando era ela que me preparava o pequeno-almoço, era diferente, juro que era! Era mais doce, mais caloroso, mais saboroso. Lembro-me do modo meigo como me olhava e como me acordava sempre, com a voz de que quem olha para outra pessoa e se revê um pouco nela... O engraçado é que, com tantos netos, o amor dela é inesgotável, sempre foi assim com todos nós: meiga, disponível e carinhosa.
Lembro-me de ir com ela e com os meus tios fazer um piquenique, quando tinha cerca de 8 anos, e de estar a tentar adormecer na manta, depois do almoço, já de olhos fechados (mas o sono tardava em chegar), e de a ouvir dizer aos meus tios, referindo-se a mim: "Ela é tão bonita, que mais parece um anjo!" Senti-me imediatamente a menina mais feliz do mundo, uma princesa de verdade. Senti-me bonita. E hoje, quando me sinto menos bonita, lembro-me do que ela disse nesse dia, achando que eu não estava a ouvir.
Não sei quanto tempo mais vamos ser presenteados com a tua presença nas nossas vidas, avó, mas egoisticamente revelo a tendência de querer que não nos deixes. No dia em que nos deixares, vou guardar sempre as mais doces memórias de ti, "A minha Avó de Sonho".
Beijinhos,
A Menina dos Óculos